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La Strada

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La Strada




La strada LP elru079 2010

Zdravo voyage!

Mainly cooked in Cote Azurre, in streets, seaside, train-stations, playing among the people we listen speaking in French and Italian.

Street recordings that were later mixed, under stormy weather days, in Bari, a city in the south of Italy but "Vendemia song", a song about the wine-making in Florence, where Samuel and Carmen worked in the vintage last September, was finished later in Macedonia with the participation of the clarinetist Isaac Bogard.

In Kosovo Samuel recorded a small çifteli for "Olvida por ora el mundo" it´s an Albanian instrument made of wood, with only two strings, this was in November, when Samuel and Carmen were in Kosovo in a youth center, called Heimatgarten center, working with young returned Kosovar people as volunteers, after recording the çifteli, the kids played the computer mixing this song in a very random way and with this young people they made a theatre play, about a kid that escaped to Germany and find more kids that, just like him, also escaped from war but they all end up back to their origins, the theme "O fanhoso" is also a theatre play that Samuel wrote reflecting one´s philosific portait of life.

From London squats in Summertime to the heart of Turkey in the cold Winter there´s a long trip to live across south France, Italy and the mediterrain sea.

"La strada" is a polyglot album living that adventure.

Samuel and Carmen sent one beautiful acoustic instrument by mail to Alrucini, in Portugal (picolo çitfeli multo bella!) and that´s how "El loco" was born:
from this great christmas gift mixed with the street recordings creating the same ambience but in a diferent atmosphere, as if Alrucini was playing the çifteli on the streets with them but as we know it, only in an imaginary field, then "El loco" was cuted in three pieces that appear at certain times, it was inspired in the character (Il Matto) from the Fellini movie with the same title as this album.

Xarhope and Alrucini played the çifteli but in a very clumsy way.

Aug.Dec.2009

credits:
Samuel Costa e Carmen Serralva:
melodica alto e melodica tenor, flute, harmonica, berimbau de boca (mouth harp), kazoo, çitfeli, pandeiro, voices

guests:
Alrucini: çifteli, mixture (El Loco)
Dogan Su: voice (Istambul)
Isaac Bogard: clarinet (Vendemia Song)
Tozé Figueiredo (Skywalker): poetical participation (There is light in Sudão)

All tracks were slightly remixed by Alrucini but "There is light is Sudão" and "Istambul" were a bit more manipulated, they are part of other albums from Samuel and Carmen that are related with their road trip, find them:

"Taranto House" released in July by the Portuguese netlabel EDP

"Always A New Home" released by the netlabel Very Nice Noise

for more info visit Samuel & Carmen at: http://tonturarural.blogspot.com


Run time 01:06:16

Notes

"Olvida por ora el mundo"
oro queimado, ser expectral
olvida por ora el mundo olvida por ora usted
procurate el barquero pero solo puedes ver
quando abandonares la amada razon
heridas liberan sapone
micas nel suolo caliente
Olvida por ahora el mundo
Olvida por ahora usted
Procurati el companero
e tu no lo poedes ver
porque vives dentro de un balon oxigenado
sacrificios baratos
corais rojos nell' aqua
Olvida por ahora usted
Olvida por ahora el mundo
procurati el semenador
quere tuas lacrimas
para aquar la arena economica
tu pelos revelan molinos
raios de plata piuvente
Olvida por ahora el mundo
Olvida por ahora usted
procurati el dirigente del carrocel
necessita tuo ingenio

"La grand serpant"
je suis un homme desesperé
en vivant dans les ruines de rêves
non, je ne suis pas moi
je suis un personnage
avec des grands yeux et un nez bizarre
et je suis entouré de crocodiles
je cours dans la savane
avec une couronne dans mes mains
des animaux sauvages sont faits de pierre
et je traverse le soleil
dans le fort
je vois les ombres de deux soldats pauvres
ils combattent silencieusement
après elle arrete la voiture de poubelle
le chauffeur chante le fado vadio
et les soldats entrent dans la voiture avec moi
je met la courronne dans la tête du chauffeur
maintenant je suis au Monaco
et je prend les piéces dans la fontaine du palais royal
les touristes m'approche avec leurs dents pointues
et leur yeux rouges
je m'enfuis pour la montagne sacré
dans la caverne je trouve le aigle de Zaratoustra
qui me conduit au desert
je marche sur le sable je marche sur le feu
je monte le lézard et j'écoute ses pensées
j' écoute le vent qui passe
quand je me réveille je suis en face d'un grand tour
à cotê de la porte il y a un homme d'argile
il me serre dans ses bras
je monte l'escalier et au sommet de la tour
je trouve la grand serpent, la grand serpent

"Corpus"
as almas espelham a vontade do sangue
os seres são contentores, moscardos no céu
florestas de factos, migrações camufladas
o fruto da fortuna dizem que viaja nos mercados ambulantes
os corpos enlaçam-se saboreando as suas fraquezas

"La strada"
sveglia, sveglia
lascia le farfale uscire d tuo cerebello chiumoso
dimentica il ombrello dimentica il telaio
lascia tuo piedi decidere
sveglia, sveglia
alza la testa de la palia
dimentica gli pidochi dimentica gli pipistreli
no hai piu tempo per nozze neri
tira la mane de tuo collo
bussa en te petto bussa en tuo ginochio
il te dirà la verità
bevi un pou de vino e chiede alcuna cosa a ti stesso
svegla, sveglia
butto tuo cuscino por la finestra
calza gli ciabati, morde la labbra
e va cercar il fulmine
che poi essere en qualche luogo
en la gola fra la floresta de quercia
dentro la chiesa, fra il gregge de pecora
va en la citta, mete per il viele stretti
demande o uomo nero e o uomo giallo
dimande o uomo con la chitarra e o uom con la cornamusa
demande o uomo con furbia e o uomo triste
esse ti vano dire piu cosa
mas tu solemente deve dire "sveglia, sveglia"

"Vendemmia song"
con un forbice a la mano
con un paniero a calcagno
se prende il vino
e se fa un umbriachino
con la mano dentro de la luva
se prende l'uva
ma se la mano e scalza
tagliase la mano una volta e altra
dall'alva all'arrestare
el sechio sempre se vuota
la vendemmia de sangra e sudore
spacio de lavoro e de lotta
Le zanzarre cercano il dolce
le uve sono loro desidero
ma tengono che passare il cancelo
per il schemo: le bache de zucherio
il ragno construe su tela
aspettando il moscherino
que passa senza guardar n'ella
e resta senza midolino
dall'alva all'arrestare
el sechio sempre se vuota
la vendemmia de sangra e sudore
spacio de fantasia e burriotta
il lucerdo passa a correre
col caldo del sole per la pele
per tutti i rami senza cadere
fra il nido delli ucceli de natale
le uccelli cantono musiche festivi
solo ritorno all tramonte
e controno loro casa all'ombra
dall'alva all'arrestare
el sechio sempre se vuota
la vendemmia de sangra e sudore
spacio de nascita e de svouta
e le uve sechi e minitti
dopo la stazione de raccolta
e guardano i grapolli
c'é la vita, c'é il vite
i rammi marroni crescerano
fino alcuno loro taglia
radici sotto la terra fanga
e multicolori fogli nella vaglia
dall'alva all'arrestare
el sechio sempre se vuota
la vendemmia de sangra e sudore
spacio de gadagno e ruota
e il vino se fa cosi
uve que sono scachiatti
solo le restano i rammi e le foglie
fra il fiuto a zolfo e polvere
e se manja sotto il trator
ch'e la nostra trattoria
mentre il pianto e il riso
e suonando a la via
dall'alva all'arrestare
el sechio sempre se vuota
la vendemmia de sangra e sudore
spacio de explozione e de pillota

"Oriente"
Quando o sol nasce no oriente
sinto-me atraído pelas tangentes da vida
o musgo que se acumula nos recantos
esconde segredos adocicados
muralhas de ossos como no jogo do mikado
um céu de limão sobre a terra escura
uma chuva de gafanhotos cai sobre os telhados de vidro
e o lobo fisga a peste
pessoas enjauladas no seu proprio bafo
o veneno derramado sobre o leito
escorre em direcção a mar
flores bracas trazidas pelo vento
caiem sobre a pele escamosa do naufrago
e o espinhos alvos tocam o meu coração púrpura
desperto agora para a vida
um céu de limão sobre a terra escura

"O fanhoso"
- Quem és tu?
~ Sou o que está debaixo deste chapéu.
- e O que fazes por aqui?
~ Ando a ver as vistas.
- És de cá?
~ Sou teu irmão.
- Enganas-te, eu não tenho família.
~ Serei eu o teu primeiro familiar.
- Porque falas assim?
~ Porque não me resta nada senão esta língua.
- E o que está por baixo do chapéu?
~ São os nervos da língua, a força motriz.
- Falas com muita certeza.
~ Tenho a verdade do meu lado.
- Penso que a verdade é cornuda.
~ Porque dizes isso, caro irmão.
- Assim o sinto.
~ Sentes-te uma besta e falas como um animal.
- Antes fosse, pelo menos não teria de carregar todas estas incertezas.
~ Pensas que um animal não é uma criatura metafísica?
- Um animal pode descansar em paz.
~ E tu porque não descansas?
- Tenho medo de magoar as flores.
~ Bem sabes que o sofrimento é indissociável da vida.
- Bem sei, bem sei…
~ E o que mais sabes tu?
- Sei que as tuas intenções não são dignas.
~ Porque dizes isso?
- Pretendes explorar, inverter, confundir.
~ E que tem isso de indigno?
- O teu fim é a destruição.
~ Enganas-te. Procuro apenas o caminho para o castelo.
- E pensas que eu poderei ajudar-te?
~ Já estás a ajudar.
- É bom ser útil.
~ E em que posso eu ser-te útil, irmão?
- Ajudas-me a descalçar as botas?
~ Com certeza. Senta-te no chão e estende-me o pé.
- E as flores?
~ Preocupas-te com as que vais pisar e não te preocupas com as que estão por baixo dos teus pés?
- Se pelo menos pudesse flutuar.
~ Podemos resolver isso de outra maneira.
- Como?
~ Penduras-te no tronco daquela árvore e eu descalço-te as botas.
- E depois o que fazes às botas?
~ O que quiseres que faça.
- Podes fazê-las desaparecer?
~ Não sou mágico, mas posso enterrá-las num buraco.
- Não pretendo remexer na terra.
~ Posso esconde-las por baixo das folhas secas.
- Ainda assim continuaram a existir.
~ Posso lançar-lhes o fogo.
- Talvez seja essa a solução ideal.
~ Assim seja. Podes avançar em direcção àquela árvore?
- E as flores?
~ Eu te carregarei nas minhas costas.
- Não permitirei que me toques.
~ Então nada feito.
- Isso mesmo. Esqueçamos isto. Eu mesmo já me esqueci das botas.
~ E vais ficar ai para sempre?
- Vou ficar até arranjar uma solução.
~ Mas precisava que me acompanhasses.
- Que te acompanha-se onde?
~ Ao castelo.
- E porque não vais sozinho.
~ Porque só tu me podes ajudar a encontrar o caminho.
- E o que te leva a dizer isso?
~ Está estampado no tem rosto.
- O que tem o meu rosto?
~ Carregas a chave dentro de ti.
- Dentro ou fora?
~ Dentro e fora.
- E o que há nesse castelo?
~ A liberdade mora lá.
- Então é esse o teu fim. A liberdade.
~ É verdade.
- E eu fico com o quê?
~ Ficas com a verdade.
- Avancemos.
~ Não consigo.
- Não consegues porquê.
~ A incerteza tomou conta de mim.
- Mas o teu fim é a liberdade. E eu vou-te levar a ela.
~ Já não confio plenamente em ti.
- Porque não? Se a verdade está comigo.
~ Sinto que a incerteza é mais forte que a verdade.
- Ainda agora eu me sentia assim e não me sinto mais.
~ Sentes-te liberto?
- Sinto-me capaz de avançar.
~ E és capaz de ir sozinho.
- Não, porque o castelo é uma invenção tua. Sem ti, não há castelo.
~ E acreditas que a minha fantasia é real?
- Acredito.
~ E acreditas que a liberdade me espera?
- Acredito.
~ E se eu ficar com a liberdade tu ficas com o quê?
- Fico com o castelo.
~ Como sabes.
- Sei, porquê a liberdade vai querer viver contigo fora do castelo.
~ Mas se a liberdade sair do castelo, deixa de existir castelo.
- Isso não me apoquenta. Com a verdade do meu lado poderei construir os castelos que quiser.
~ E as tuas botas, não te atrapalharão na caminhada?
- É verdade, vou tira-las eu mesmo.
~ Já não tens medo de magoar as flores?
- Não, sinto-me cheio de coragem.
~ Mas já não precisamos de ir a lado algum.
- Porquê?
~ Porque a liberdade vem ai, precisamente na nossa direcção.
- E vem mesmo.
~ É uma bela mulher.
- Sem duvida.
~ Cá está ela.
- Lá vai ela.
~ Não pode ser.
- Passou e nem reparou em nós.
~ Está tudo perdido.
- Nem tudo. Vamos atrás dela.
~ Não, não, não. Estava previsto encontrarmo-nos no castelo.
- Talvez ela volte.
~ Volte para onde?
- Para o castelo.
~ Já não há castelo algum, sem liberdade não há castelo.
- Tem de haver castelo, porque eu sou a chave que te guiará ao castelo.
~ Exactamente. A liberdade arrasta consigo o castelo. Para onde ela vai, vai o castelo.
- Viste algum castelo passar por aqui?
~ Não, devias ser tu a ver, tu és o guia.
- Não vi nada.
~ De que te serve a verdade se és cego?
- A verdade é cega.
~ Talvez.
- E agora?
~ Agora já não sei quem sou.
- És o que está por baixo desse chapéu.
~ E tu, quem és?
- Sou o que está por cima destas botas.
~ E serás capaz de me ajudar.
- Sim vou ajudar-te a reconstruir o castelo.
~ Deixei de acreditar em castelos.
- Então já não precisas de mim.
~ Não, podes ir embora.
- Mas eu já estava aqui quando chegaste.
~ E dai?
- Dai que este território é meu.
~ É tanto teu como meu.
- Não é verdade.
~ E o que sabes tu sobre a verdade? Fui eu que trouxe a verdade comigo.
- Sim, mas agora o dono da verdade sou eu.
~ E para que te serve essa verdade.
- Ainda não sei bem. Tenho de pensar.
~ Queres que te descalce as botas para pensares melhor?
- Não é preciso.
~ Tens medo de magoar as flores?
- Penso que sim.
~ Então já não vais a lado algum.
- Porque haveria de ir?
~ Poderias querer ir atrás da liberdade.
- Quem queria ir ter com ela eras tu.
~ Já não preciso.
- Porque não?
~ Porque eu próprio sou a liberdade.
- Essa agora! Então e quem era essa beldade que ai passou?
~ Penso que era o desespero.
- O desespero também é uma mulher?
~ É verdade.
- Se é verdade ou não eu é que sei.
~ E o que é que tu sabes?
- Sei que não vais a lado algum sem mim.
~ Eu sou a liberdade, vou onde quiser.
- Então vai.
~ Não me apetece, o meu desejo é ficar aqui.
- A liberdade não obedece ao desejo.
~ Isso sou eu quem decide.
- A liberdade não toma decisões. Quem toma decisões é a razão.
~ E a razão és tu?
- Exactamente.
~ E o que decides?
- Decido que tu não és a liberdade, tu és o desespero.
~ Mas o desespero não passou ainda agora aqui?
- Não, quem ai passou foi a fraternidade.
~ A fraternidade!
- Sim, a fraternidade.
~ Quem é essa?
- É a harmonia.
~ E porque não reparou em nós?
- Porque não passamos de uns tolos.
~ Mas tu és a razão, e a razão está acima das tolices.
- Enganas-te, a razão é capaz do melhor e do pior.
~ Ainda bem que ela não parou, uma vez que sou o desespero ia dar cabo dela.
- É impossível ferir a harmonia.
~ Não fazes ideia do que eu sou capaz.
- És capaz de quê?
~ Sou capaz de … sou capaz de prever o futuro.
- Agora és mágico?
~ Com toda a segurança.
- E o que prevês?
~ Prevejo que não tarda nada a harmonia vai passar aqui outra vez a correr.
- Não vejo nada?
~ Esqueceste-te que és cego, a verdade é cega.
- Mas eu não sou a verdade, isso já foi à muito tempo. Eu sou a razão.
~ E não é a mesma coisa?
- Pensas que o desespero é o mesmo que magia?
~ Cala-te e observa. Lá vem ela. Vê como vem estafada.
- Abençoado sejas. E de que fugirá tal criatura?
~ Foge da minha profecia, tinha profetizado que ela se ia tornar o desespero.
- Diria que toda ela é já o desespero.
~ Só podes ter razão.
- Eu sou razão.
~ Eras, daqui a nada vais ser outra coisa.
- Trata bem do meu destino.
~ Agora és a mentira.
- Isso é que não, sou capaz de te matar.
~ Porque mentes?
- Não sou o único.
~ Isso é uma acusação?
- Mentis-te quando disseste ter a verdade do teu lado, mentiste quando afirmaste que eras a liberdade,
mentis-te quando te apresentaste no papel do desespero.
~ Continuas a mentir, eu nunca fui o desespero. O desespero passou aqui a correr.
- Enganas-te. Quem passou aqui a correr na verdade foi a tentação.
~ E porque haveria eu de acreditar em ti se tu és a mentira.
- Isso foste tu que disseste. Mas não passas de um profeta charlatão.
~ Então quem és tu.
- Eu sou a beleza.
~ Como justificas isso?
- Dai a minha incapacidade para magoar as flores, dai ter passado aqui duas vezes a tentação.
~ Faz sentido, mas não te acho belo.
- Tens de dar tempo ao tempo.
~ Não acredito no tempo.
- Olha para as tuas rugas e acreditarás.
~ Porquê olhar as minhas quando tenho as tuas à minha frente?
- Eu não tenho rugas, a beleza não tem rugas, tudo eu sou qualidades.
~ Ficaste cheio de importância de repente.
- Olha quem fala. Tu mesmo te assumiste como mágico.
~ Eu não sou mais do que o que está debaixo deste chapéu.
- Voltas ao zero?
~ Desde de que aqui cheguei ainda não fui a lado nenhum.
- Parece-me que deste já uns passos para a frente e outros para trás.
~ E isso o que é?
- Muito!
~ Ainda queres que te tire as botas?
- Quererás tu desnudar a beleza?
~ Penso que a beleza fica mal nessas botas.
- Só se prometeres que depois ficas com elas na mão.
~ Prometo.
- Ai tens o meu pé, podes puxar.
~ Estão demasiado justas.
- Puxa!
~ É impossível.
- Puxa.
~ Não consigo.
- Não passas de um inútil.
~ Sem a razão do meu lado faltam-me as forças.
- A razão é tua inimiga.
~ E tu não és a beleza, tu és a arrogância.
- E sabes o que é que está por baixo de esse chapéu, sabes?
~ Sei sim, nada mais nada menos que a fantasia.
- A fantasia é amiga da mentira.
~ E a arrogância não tem amigos.
- Enganas-te, sou amiga do desespero.
~ Esse filho da puta tem de vir sempre à conversa.
- Foste tu o primeiro a falar nele.
~ Tens boa memória.
- Pensava que a fantasia era mais bela.
~ Tens de dar tempo ao tempo.
- Não acredito no tempo.
~ Porque repetes as minhas palavras?
- Para te confundir. A fantasia facilmente se confunde.
~ Quando aqui cheguei o confundido eras tu.
- Não te fies nisso.
~ Muito fio há ainda para desenrolar.
- E tu vais ser o primeiro a tropeçar.
~ Não me assusto com isso.
- E o que assusta a fantasia?
~ O mesmo que assusta a arrogância, a morte.
- Desconheço a identidade de tal ser.
~ Com essa afirmação te revelas.
- Como assim?
~ Tu és o medo.
- Não fantasies.
~ Muita fantasia há na verdade.
- Pouca verdade há na fantasia.
~ O medo joga sempre à defesa.
- E se eu me abraçar a ti?
~ Nem pensar. Também eu sou o medo. E quando as comadres se juntam…
- Quando as comadres se juntam?
~ O mais certo é o caldo entornar.
- Todo eu sou um caldo requentado.
~ Assim é o medo. Bem te percebo.
- Estamos finalmente de acordo?
~ Antes não tivéssemos.
- Nunca estás contente.
~ Eu não sou bem o medo, eu sou…
- Tu és a miséria. É isso que são os insatisfeitos medrosos.
~ E tu com esse medo requentado, só podes ser a repugnância.
- Onde é que isto vai parar?
~ Daqui não saímos. E a culpa é tua e das tuas botas.
- As minhas botas são tão culpadas como a tua língua.
~ Repara, talvez ainda possamos ser salvos.
- Que estupidez.
~ Vem ai a harmonia outra vez, talvez ela nos possa dar a mão.
- Ou será o desespero?
~ Ou a tentação!
- Ou a liberdade.
~ Sabes assobiar?
- Não, e tu?
~ Também não.
- Miserável.
~ Repugnante.
- Lá vai ela.
~ Não sei se é um ela é um ele.
- Se é andrógino, só pode ser uma coisa…
~ O quê?
- O amor.
~ Porque dizes isso?
- Porque oiço vozes na minha cabeça.
~ Talvez estejas a ficar louco.
- Certo, eu sou a loucura, e quero que dances comigo.
~ E não tens medo de pisar as flores?
- De maneira alguma, tenho a vontade do meu lado.
~ Mas temo que pises os meus pés. Podes descalçar-te?
- Infelizmente não. Não tenho nada por dentro.
~ Isso só vem comprovar o que eu desconfiava.
- O quê?
~ Que eu estou a usar os teus pés.
- O que me contas!

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